Uma vez, meus amigos, ouvi o Ventor contar façanhas da sua vida por terras de Babilónia, que hoje fazem parte do moderno Iraque.
Por isso, eu estou de garras nas teclas para vos contar as suas façanhas. O Ventor, era amigo das gentes da então Mesopotâmia e ele era doido pelos seus rios, especialmente, o Eufrates, mas também do Tigre e ficava como que paranóico ao desfrutar das neves que cobriam as montanhas geladas do norte, hoje, terras dos Curdos.
O Ventor não esquece os amigos que corriam aquelas montanhas atrás das cabras que hoje já não há, de cavalos, ovelhas e demais bicharada que, já, na altura, eram fonte de rendimento das suas gentes. Mas, também é verdade, que houve sempre choques tremendos, entre as gentes dos vales e das montahas - e olhem que, nessa altura, ainda não se tinha descoberto o petróleo!
Stela de Istar
Nas suas deambulações pelas terras dos caldeus, há amigos que ele nunca esquece, como o destemido Nemrod, o inteligente codista Hamurabi, aqueles guerreiros, Nabopolassar, Nabucodonosor II e outros.
Pois é. O Ventor conheceu Nabopolassar, Sátrapa da Babilónia, então, na dependência do rei da Assíria, o terível Sinsariskun. Os assírios que já tinham conquistado Babilónia e pretendiam fazer uma política de expansão com as suas gentes locais agregadas, nomearam o babilónio, Nabopolassar, Sátrapa da Babilónia conquistada e, Sinsariskun, enviou-o para combater os bárbaros que, com poderosas esquadras, comandadas por piratas, ameaçavam as suas costas.
Nabu - deus do saber e da cultura
No princípio, Nabopolassar, cumpria, rigorosamente, as ordens emanadas de Ninive mas, depois de muito matutar, entendeu que ele teria de defender Babilónia dos assírios e não daqueles a quem os assírios chamavam piratas. Afinal, aqueles piratas não estavam interessados em fazer mal às gentes babilónicas, mas às gentes dominadoras e carniceiras da Assíria.
Um dia, no caminho de Ninive para Babilónia, junto ao rio Eufrates, um grupo de homens cavalgando cavalos e camelos, montaram arraiais à sombra de chorões, nas suas margens. Debaixo de um chorão, numa bela sombra de um calorento dia, dormia o Ventor com o seu arco encostado ao seu corpo. Um dos cavaleiros acabados de chegar aproximou-se vagarosamente do corpo estendido do Ventor, aproveitando para lhe tirar o arco, mas o cavalo branco do Ventor, Antar, um fiel companheiro das suas caminhadas, saíu debaixo de outro chorão e com os dentes, pegou o cavaleiro pelos cabelos e levantou-o no ar. Quando os outros se aproximaram em auxílio do companheiro, já o Ventor tinha o primeiro do grupo, na mira do seu arco. O primeiro do grupo era, exactamente, Nabopolassar! Nabopolassar, informou o Ventor que aquelas terras eram suas, pois elas eram uma legação dos seus antepassados.
O Ventor respondeu-lhe que não lhe reconhecia direitos sobre aquelas terras, pois elas eram as terras onde o seu amigo Nemrod tinha deixado, para sempre, as suas ossadas.
Nabopolassar, disse ao Ventor que tinha sido incumbido pelo rei Sinsariskun de dar luta aos bárbaros e era isso que ia fazer, levantando um exército babilónico e dirigir-se para a confluência dos rios. Mas o Ventor que não gostava dos bárbaros e gostava menos ainda de Sinsariskun, disse a Nabopolassar, para analisar bem a situação, pois não lhe agradava nada ver as terras do seu amigo Nemrod na posse dos assírios.
Os assírios eram terríveis
Nabopolassar, ao ver a insistência do Ventor em nomear o seu amigo Nemrod, por sinal, um ascendente seu, de Nabopolassar, começou logo a pensar naquilo que o Ventor lhe dissera e convidou-o a acompanhá-lo e, juntos, enfrentarem os bárbaros. Ventor avançou com Nabopolassar e seus homens rumo à confluência dos rios e apanharam, de surpresa, os bárbaros, não deixando que as suas esquadras se lançassem às águas do Golfo. Os bárbaros que iniciaram conversas com Nabopolassar e Ventor, ofereceram os seus serviços a Nabopolassar e dispuseram-se a ajudá-lo a tomar Ninive de assalto.
Nabopolassar perguntou ao Ventor se, perante esta nova situação, achava bem que os descendentes de Nemrod tomassem conta das suas terras e corressem com os assírios da sua terra sagrada. O Ventor disse-lhe que sim e poderia contar com ele, o seu arco e o seu cavalo Antar, para as grandes batalhas que se iam aproximar.
Já com forças suficientes, ao receber o apoio dos bárbaros e do terrível arco do Ventor, Nabopolassar, proclamou a independência de Babilónia e desencadeou várias lutas contra os assírios, propondo-se capturar a cidade de Ninive e o seu rei Sinsariskun. Para isso, aliou-se aos adversários dos assírios e fez uma aliança com Ciaxares, rei dos Medos que já tinha vencido os assírios em várias batalhas, obrigando Sinsariskun a refugiar-se em Ninive, colocando todo o seu poderoso dispositivo militar em redor da grande cidade, pronto a defende-la, até à morte.
Diana chorava ao saber da atitude do Ventor, ao prontificar-se para ajudar Nabopolassar a organizar um poderoso exército e darem luta aos não menos poderosos assírios. Organizava-se assim o assalto a uma das mais poderosas fortificações do planeta Terra, na altura - Ninive.
Após um belo sono no regaço de Diana, eis o despertar, através do Bit Galáctico de Marduk. Barulhento como sempre, gritava:
"Ventor! Ventor! Ventor"!
«Sim, Marduk»!
"Estou a chegar! Neste momento passo junto a Vénus e já vejo o olhar luminoso de Diana e, sob um chorão verde, a ponta do teu arco, encostado ao tronco. Encontramo-nos junto às ruínas de Hur".
«Junto às ruínas de Hur»?
"Sim! Afinal tudo isso é a minha terra e minha gente. Gostava de saber que é que tu pretendes, Ventor"!
O Ventor já pelos cabelos, por tanto ouvir Marduk gritar através de milénios, deixou ali Diana, junto ao Eufrates e saltou para o seu cavalo e atirou a Marduk com a mudança dos tempos.
«Os tempos são outros, Marduk! A Terra actual já não tem nada a ver com aqueles tempos em que tu te assenhoraste de Babilónia É disso que vamos falar».
Assim o carro estelar de Marduk se aproximava das ruínas de Hur, como uma estrela cadente, assim o cavalo branco alado do Ventor, de olhos cintilantes, quais diamantes reflectores dos raios de Apolo, iluminavam toda a região e, as suas ruínas antigas, como Hur, Babilónia, Ninive e outras terras que a história não deixará morrer. Estes velhos contendores, de eras passadas, recordam batalhas ganhas e batalhas perdidas.
Junto às ruínas de Hur, já protegido dos raios vigilantes de Apolo, Ventor e o seu cavalo alado, com o seu longo arco sobre as rédeas, esperavam.
A chegar, puxando as rédeas das suas quadrigas, Marduk aproxima-se , já em rodado lento, do cavalo alado do Ventor - Antar.
Sempre espavorido, Marduk atirou logo:
"Diz-me Ventor, porquê tanta pressa em falares sobre estas gentes, de quem eu me apossei há milénios? Porquê tanta predisposição da tua parte, para recuperares esta espécie de ovelhas estremalhadas do teu quintal terreno que já foi meu? Porquê, Ventor"?
Ventor observa o carro estrelar de ouro e de lápis-lazúli de Marduk. Verifica, num relance, as suas rodas de ouro com eixos de diamante e, numa voz suave diz:
«Vejo, Marduk, que nas tuas quadrigas aladas se encontram quatro cavalos pertencentes à caudelaria de Marte. Pressuponho já teres delineado uma aliança estratégica com ele».
"Bem, o teu «amigo» Marte, sempre se inclinou um pouco para o meu estilo de liderar e dominar. Penso até que estará predisposto a encetar negociações comigo, à moda antiga, para lhe dar um festival que muito gostará de observar a partir do seu quadrante solar. Sempre muito próximo dos contendores que se preparam, mais uma vez, para darem outro espectáculo, aqui na Terra, e que será observado por toda a galáctea".
«Marduk» - disse o Ventor - «continuas com o teu sentido e espírito venenosos e caprichosamente, a predispor os teus amigos terrenos para lutas sem qualquer sentido. Tu sempre interpretaste a figura do mal, trazendo com ela a morte, o sofrimento e a destruição de tudo que, com sacrifício, procuram construir aqui, por terras de Hur. Não julgues que a Esfera vai permitir que continues impugne com os teus devaneios e desventuras».
"Quem pensas tu que és, Ventor! Que mal tem que a Esfera se divirta um pouco a ver estes já protagonistas eivados de sangue, digladiarem-se por convicções despropositadas que tanto me custou inculcar-lhes naquelas cabeças ocas. Que pensas tu que são os terráquios, Ventor? Não passam de uma espécie de escumalha criada pela Esfera, onde, alguns de nós, estão ávidos de sangue como tem sido demonstrado através dos milénios, em que os homens andam pela Terra. Que queres tu fazer, Ventor"?
«Quero Marduk» - disse o Ventor - «que esqueças tudo o que de negativo houve no passado na formação e preparação das gerações terrenas. Foi decidido no Conselho da Esfera que todos os descendentes de Noé e seus filhos, teriam o privilégio de, em cada cabeça, viverem o seu próprio universo pessoal e, também, de o moldarem no sentido dos valores propostos pela Esfera que são, em súmula, o caminhar seguro no aperfeiçoamento dos seus sentimentos como princípio geral do bem comum».
"Não Ventor" . ripostou Marduk . " eu sempre contestei esses princípios. Sempre achei que o homem deve ser forjado no seu caminhar, como os metais eram forjados nas forjas dos ferreiros. Os homens devem aprender a renovar-se permanentemente não pelos princípios apontados pela Esfera, mas com a minha intervenção, sempre adequada às circunstâncias dos tempos. Portanto, sou eu que devo decidir, como e quando, essa renovação será feita".
«Marduk, eu não permitirei que os princípios da Esfera sejam adulterados por ti, por Marte ou por quem quer que seja» - disse o Ventor. Para isso, vou ter de conseguir que a tua influência sobre as gentes da nova Hur seja, de imediato, retirada. Pretendo assim, que comuniques aos teus delfins terrenos, que irás perder a tua ascendência sobre as novas terras de Hur».
"Não Ventor! Isso eu não farei. Estas terras sempre foram de minha influência e quando os seus tempos áureos chegaram, eu estava bem mais presente do que estou agota. Eu era adorado, venerado, poderoso! Agora pretendo, apenas, recuperar o prestígio perdido".
«Marduk, diz aos teus Sadams e seus lugares-tenentes que tens de retirar porque, a pedido do Ventor, a Esfera vai-te retirar todo o domínio que ainda tens e o que pretendes vir a ter, sobre as novas terras de Hur. Diz-lhe que, eu, Ventor, nunca permitirei que seja restabelecido, em terras de Babilónia, o antigo poder de Marduk, mesmo que, para isso, tenhamos de fazer uma selecção natural, à força do poder do meu arco».
Este é parecido com o Antar
"O teu arco ventor"! Ripostou Marduk todo enervado. " Que julgas tu que poder tens no teu arco? O teu arco não é nada Ventor, comparado com o poder exibido por Marduk. Eu sim, tenho poder! A Esfera receia-me e não se quer intrometer em tudo o que eu me meto. Neste momento, Ventor, eu tenho a arma mais poderosa com que os terrenos nunca tinham sonhado antes. O TERROR. O terror, Ventor! Até tu andas aterrorizado. Ah! Ah! Ah!» ...
«Não te rias Marduk» - disse o Ventor sereno. «Com algum tempo e paciência, as flechas do meu arco, poderão, com eficácia, arrasar todas as tuas forças de terror. Numa flecha incendiária, terminarei, para sempre, com os ninhos de víboras que simbolizam o teu terror, Marduk. Mas não é isso que pretendo. Não te vou dar o prazer de veres a galáctea assistir, como tu dizes, ao grande espectáculo. No entanto Marduk, se assim tiver de ser, não serás enjaulado para khorsabad como já te aconteceu. Ficarás por longo tempo, afastado das lides terrenas, aprisionado noutra galáctea onde o bem e a felicidade das suas gentes serão a tua tortura».
Assim terminou o Ventor a sua conversa com Marduk que, irado, partiu na sua quadriga celestial pensando pernoitar junto de Marte, para substituir os cavalos emprestados.
Ventor, de olhar fixo em Marduk, continuou a pensar nos malefícios que ele irá preparar nestas lindas terras babilónicas e, regressou ao local onde Diana o esperava.
Chegada junto de Diana
"Amor, companheiro, amigo!
Que se passou com Marduk?
Não quero que algum mal haja contigo,
Não deixes ele utilizar, qualquer truque"!
Por buracos negros de galácteas,
Marduk pensará seu obejectivo,
Manter-se em situações errácticas,
E preparar-se para lutar comigo.
Estarei pronto para qualquer embate,
No Éden onde este mundo nasceu,
Protegerei um novo Iraque
Terra de um mundo que já foi meu.
Sempre disputei com Marduk,
Não a terra, mas as mentes da gente.
Poderá utilizar qualquer truque,
Que eu o destruirei de repente.
Diana o mundo é duro e avesso,
A nossa vida vai ser árdua e dura.
Não permitirei que qualquer travesso,
Faça levantar mortos da sepultura.
Iraque nova terra de Babilónia,
Com forças do bem e do mal presentes,
Aqui lutarei sem alguma parcimónia,
Para preparar a liberdade às suas gentes.
Se para isso Marduk me obrigar,
Com meu arco, eu tudo enfrentarei.
Destruirei Marduk bem como Istar,
Mas como fazê-lo, ainda não sei.
Flores de amor e liberdade para as terras sagradas de Babilónia
Esta foi uma das histórias que o vosso amigo Quico ouviu ao Ventor. Eis o que eu ouvi enquanto ele estava deitado, uma noite que ...
«Para cumprir os desígnios que me foram atribuídos pela Esfera, Quico, parti num fim-de-semana para terras que já foram a minha Babilónia, a fim de ter um encontro com Marduk.
Mas, Marduk, como sempre, antes de qualquer encontro que não seja do seu agrado, inventa alguma maneira de se esquivar, chegando mesmo a simular falhanços nos azimutes siderais, desculpando-se com encravamentos no sistema, provocados pela explosão de "novas" e deslocamentos de enormes meteoros, derivados das mais diversas intempéries a que todo o universo está sujeito.
Assim, através do seu Bit Galáctico, Marduk comunicou-me:
Acho que te vou contar a história toda! É esta:
«Ventor, lamento ter de te informar que, devido ao embate no meu carro estelar de um grande meteoro com início na explosão da estrela denominada xy12b.hurk do espaço sideral de Grimin.x1z2, estou atrasado cerca de 24 horas contadas na Terra, onde te encontras. Espero conseguir atravessar mais rapidamente pelo buraco negro de Pantopic.y113.z2, coordenada galáctica que, como sabes, é um local perigoso, mas não o suficiente para demover-me, deste nosso encontro tão importante».
"Perante isto, e já em terras babilónicas" - diz o Ventor - "resolvi prestar homenagem ao meu amigo Nemrod, no local onde estão depositadas as suas ossadas, nas antigas terras de Hur. Porém, o seu espírito contiua sempre presente perante mim e perante o Conselho da Esfera e é muitas vezes chamado a participar em decisões importantes sobre projectos relacionados com a evolução da Humanidade no Planeta Tera - o nosso Planeta Azul.
Após o meu encontro com Marduk, cujas conclusões serão apresentadas no Conselho da Esfera, onde Nemrod estará presente para participar nas decisões que serão tomadas no provir desta região do globo, onde se situam as terras de Hur e o glorioso Reino da velha Babilónia.
Devido ao atraso de Marduk, encontrei-me com Diana, companheira inseparável das minhas venturas, num verde bosque, nas margens do Eufrates, encostados a um velho tronco que se inclina sobre este lindo rio bíblico, um dos quatro que faziam parte do Éden, onde, pelos tempos, vivemos, como este, muitos dos nossos acontecimentos amorosos».
O rio Eufrates tem cerca de 3.000 km desde a nascente até ao Chat-rl-Arab, onde se junta com o rio Tigre depois de passar 1.230 km pela Turquia, 710 km na Síria e 1.060 no Iraque
O Ventor falou-me sobre o seu amigo Nemrod que, há muitas gerações atrás, vagueia sobre a Terra acompanhando o seu velho cão mas, fá-lo sem qualquer pena, sem ter que prestar contas aos seus velhos inimigos, assírio-caldaicos ou, eventualmente, a outros mais modernos. Isto é, Nemrod vagueia sobre a Terra mas não é nenhuma alma penante. Ele participa de um estudo do Senhor da Esfera, sobre a eventualidade de varrer da face da terra o homem que quis criar à sua imagem.
Diz o Ventor:
«há muitas gerações que nos damos bem. Quando nos encontramos, bebemos uns copos, cantamos, rimos e, apesar das tristezas com que o mundo dos homens nos tem presenteado, tudo nos tem corrido mais ou menos. De vez em quando, aparece-me em forma de duende, em qualquer lugar».
E prossegue:
«às vezes, encontrava-o debaixo do seu grande chapéu, que usava nos tempos das grandes caçadas, nos vales e florestas da Caldeia, aquelas que, com o andar dos tempos, se transformaram em poços de petróleo, focos de raiva e cobiças das últimas gerações.
Não é por acaso que as terras da Caldeia eram ricas em leões e que os homens desses tempos tinham de lhes dar caça. Os leões apareciam nos galinheiros tal como as raposas fazem hoje pelas aldeias serranas. Levavam galos, animais domésticos e, até, pessoas.
Nas planuras que envolviam as partes baixas do Tigre e do Eufrates, a caçada era feita com arco e flecha, nas áreas montanhosas, mais a norte, a caçada era feita com lanças ou zagaias. Já nessa altura se apostava em manter o equilíbrio das espécies e as caçadas começaram a ser selectivas, mas lá, como hoje cá, começaram a aparecer os "shungas"! Começaram a fazer da caçada uma shungaria. Nemrod morreu, o Ventor partiu para outras galácticas e a shungaria começou a dar cabo de tudo. Quando o homem se começou a achar inteligente só porque tinha começado a raciocinar, acabou a estragar tudo. Havia sido descoberto o fogo, já há milénios, uma arma terrível para bem do homem e, também, para seu mal.
Acharam que deviam acabar com os leões incendiando as florestas e preparando-lhe armadilhas. Os leões fugiam à frente dos incêndios e, de repente, viam-se, frente a frente, com autênticas hostes selvagens e raivosas, sendo espetados com lanças ou furados com flechas. Nas casas dos grandes senhores as peles dos leões eram sinónimo da sua força e riqueza. Nesses incêndios, eram arrasadas florestas e todos os animais selvagens, apenas para apanhar leões!
Mas as coisas começaram a correr muito mal. O clima começou a mudar e a região começou a ficar cada vez mais seca. As florestas não foram recuperadas com a intensidade com que foram destruídas e a riqueza que todos os dias dava graças à passagem do meu amigo Apolo, acabou por se ir infiltrando, envergonhada, no solo, escondendo-se por lá. Passou a ser a riqueza escondida que durante milénios ali se foi acumulando até, um dia, vir ao de cima a capacidade do homem para a ir buscar mas, toda essa riqueza só tem enchido o umbigo a alguns e feito a pobreza de muitos, à sua volta. A riqueza deveria ser extraída para bem de todos e não apenas para o bem de uns poucos. Começou a ficar tudo numa grande caldeirada como no tempo do meu amigo Noé.
A cabeça de cada homem é um mundo esférico e independente, como o nosso mundo exterior. Vivem em confronto permanente uns com os outros e cada um, apenas magica em como deve prejudicar o outro e, apenas, por vezes, devido a forças de tracção que o induz a garantir a sobrevivência, é levado a ponderar os seus actos mas, por pouco tempo. Num ápice, devido à cobiça e inveja, começa a perceber que o vizinho tem uma vida melhor por razões que ultrapassam o seu conhecimento e, então, acaba por inventar. Muitas das vezes, esquece-se que o vizinho tem uma vida melhor porque sabe gerir melhor os seus recursos. O vizinho trabalha e obtém os seus frutos que gere da melhor forma possível virado para o essencial da vida enquanto o outro, avarento, vai para as festas, viver à grande e enriquecer outros.
Ele gasta os recursos nas discotecas, nos bares, nos fados, em bombas automóveis modernas e, depois, não tem o suficiente para tratar dos filhos, da sua educação e das necessidades da casa. Gasta os seus recursos em tornar outros ricos esquecendo-se do que para si é essencial. Hoje é assim e, no tempo do meu amigo Nemrod, também assim era. Uns com mais cavalos ou com mais camelos, formas de riqueza na época, com mais ou menos mulheres, com mais ou menos cabras, burros ou ovelhas, contabilizavam, na areia, as virtudes ou as desgraças do dia a dia e originavam conflitos inconcebíveis!
Hoje, com os mesmos ou outros meios, tudo gira da mesma maneira. Os cavalos que rebocam a nossa viatura ou a do vizinho ainda são criados nas caudelarias da Mesopotâmia, como nos tempos de Nemrod mas, tal como então, uns têm mais cavalos que outros e isso, faz mover invejas».
Calculem, agora, se os vizinhos de que o Ventor fala, conhecessem as caudelarias e as viaturas de Marduk!
Mas o ventor continuou:
«hoje, o mundo está a cometer os erros de outrora! Existem incendiários por todo o mundo. Na área Mediterrânica como por outras áreas inter-tropicais, as florestas ardem porque parece que há muita gente, por razões várias, a achar piada a isso. Os recursos para apagar os incêndios são sempre poucos e as catástrofes originadas por eles, são cada vez maiores. Eles consomem tudo! Animais selvagens e domésticos, economias de sobrevivência das pessoas e toda uma cadeia que nos vai reduzindo a capacidade de permanecer no Planeta Azul. Dá a impressão que esses malfeitores são a mão satânica que nos tenta empurrar para o abismo e o seu fim deveria ser, terminar com essas forças satânicas, reduzindo-as a cinzas, num qualquer galho ardente do fogo que, voluntariamente, atearam».
Ruínas da velha Babilónia
Nesses tempos da velha Mesopotâmia, diz o Ventor, que já haviam poesias com este teor:
Babilónia
Cá, nesta Babilónia, donde imana,
Matéria a quanto mal o mundo cria.
Cá, onde o puro amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
E pode mais que a honra, a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia,
Cuida que nome vão, a Deus engana;
Cá neste labirinto, onde a Nobreza,
Com esforço e saber pedindo vão,
Às portas da cobiça e da vileza.
Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, então!
Diz ainda o ventor:
«este é um poema de Gilgamesh que leu com os olhos arrasados de lágrimas junto das falésias que circundavam o encontro dos belíssimos rios Eufrates e Tigre, com as águas do chamado Golfo. Ali gritou Gilgamesh: "estou cheio desta gente, vou partir"!
Foi estarrecedor ver aqueles dois amigos, Nemrod e Gilgamesh, abraçados a chorarem as misérias que devassavam Babilónia»!
"Ventor!!! Gritou Nemrod. Prepara o teu arco, lança a flecha e, que ela não passe para além dos cedros do Líbano! Este é o espaço que damos ao nosso amigo, para caçar, viver, fazer as suas culturas e, se achar conveniente, explorar os cedros. A ti, peço-te a missão de o vigiares, mantendo sempre a sua integridade física».
O meu arco e a minha lança, serão apontados sobre a vilania, a cobiça e a tirania desta terra, onde serão repostos valores como o amor e a honra, e partirá, rio abaixo, este escuro caos de confusão".