quarta-feira, 10 de julho de 2002

Ventor e o Bafo

  Ventor 10.07.02

Diz-me assim, o Ventor

«Eu, há milénios que por aqui ando e procuro cumprir os desígnios do Todo-Poderoso, Senhor da Esfera - O Criador, Aquele de onde tudo emana;

Adão e Eva, foto tirada da Wikipédia

há milénios que desde que a Luz é Luz e a Noite é Noite, vivo intensamente, de estrela em estrela, de planeta em planeta e suporto o bafo da vida, desde que a sapiência do Senhor da Esfera teve a bondade de projectar, num montículo de mica, um boneco em forma de homem e no qual insuflou o fôlego da vida, o transformou em alma vivente e lhe chamou Adão;

Há muitos, muitos milénios que vi o Senhor da Esfera plantar um jardim a que chamou Eden para servir o homem, fazendo brotar da terra todas as árvores e todas as maravilhas para sua satisfação;

há milénios que o Senhor da Esfera, para sua maior satisfação, fez nascer um rio que se dividia em quatro, com os seguintes nomes:

Psion, que rodeava a terra de Havila, onde havia ouro;

Gion, que rodeava toda a terra de Cush;

Hidequel, que se dirigia para o lado do oriente da Assíria (hoje chamado Tigre);

Eufrates, o rio de que muito ouviremos falar por amizade a Nemrod.

Rio Eufrates tirado Wikipédia de Hassan Janali, umsoldado americano

Há milénios que assisti à primeira catalogação da história da humanidade feita por Adão, pois o Senhor da Esfera entendeu, e bem, que o homem deveria ter uma ocupação, encarregando-o, assim, de atribuir os nomes a todas as coisas por ele criadas.

Há milénios que também vi o Senhor da Esfera, devido à falta de matéria prima, roubar, por graça, uma costela ao Adão, para que também ele partilhasse da construção dessa obra prima que é a mulher e, fizesse dela, sua companheira.

Há milénios que, por causa dela, assisti à primeira desavença neste Planeta Azul. Vi o Senhor da Esfera furioso com Adão e expulsá-lo do Eden que ficou guardado por dois Querubins, tendo Adão que ir fazer pela vida, para fora de portas, sendo despojado de todas as maravilhas que o Senhor tinha feito para ele.

Há milénios que vi, também, a primeira fiação que o mundo conheceu, pois Adão e Eva viram-se obrigados a fazer a sua própria alfaiataria, utilizando as folhas de figueira para fazerem as túnicas e aventais que passaram a usar. Não tenho a certeza das linhas usadas mas parece-me que foi fio de cãnhamo. Mas recordo, muito bem, a oferta que Eva me fez de um tecido igual ao deles para, poder comparecer, com eles, naquele belo jardim. O fio principal que rodeava a cintura e segurava as folhas de figueira, recordo-me bem, era de cãnhamo e penso que os outros também.

Assim, tudo o que era bom se foi num ápice e, pior ainda, é que as mulheres ficaram sempre com a mania de se intrometerem nas coisas dos homens.

Fora do jardim, no chão duro de onde tinham brotado, Adão e Eva tiveram de aprender a tratar as terras e os animais e tiveram as suas primeiras criancinhas que, cresceram no encalço de seus pais mas apareceram os problemas das divisões das terras tendo Caim morto Abel por causa de um marco. As ovelhas de Abel passaram para lá do marco das hortas de Caim e, como o mundo sabe, tudo acabou mal para os dois irmãos, dando-se assim, o primeiro homicídio nos humanos, originado no eterno princípio da sua luta entre o pastorício e os cuidados agrícolas. Mas, só com dois, já os marcos existiam para a divisão da propriedade, imaginem como isto andará hoje!

Adão e Eva tiveram mais um filho, a que deram o nome de Seth mas, eu, Ventor, que tive de me arredar para outros azimutes da galáctica por razões que estavam, à altura, para além dos interesses terrenos, perdi a sequência da prole com origem em Adão e Eva, nunca chegando a saber, a que ponto da galáctica, Caim e Seth, foram buscar as suas esposas. Soube, no entanto, que tiveram filhos e filhas, netos e netas, bisnetos, tataranetos ... os quais deram continuação à prole, que tornaram grandiosa, tendo a identificação, de muitos deles, sido perdida na vastidão dos tempos.

Mais tarde, deixei o extremo da Galáctica e voltei à Terra e, dentre todos, relacionei-me mais com Lamech que veio a ser o pai do meu grande amigo, o nosso famoso Noé.

Aconteceu que encontrei instalada corrupção geral na humanidade. Havia já, instalados na Terra, gigantes e varões de fama, uma espécie de jagunços que dominavam e se assenhoravam de toda a gente.

Verifiquei todos os males instalados, concluindo que, a maldade do homem se multiplicava sobre a Terra e que toda a imaginação dos seus pensamentos era continuamente má. Esta foi a mesma conclusão a que tinham chegado os anjos enviados pelo Senhor da Esfera que me mandou fazer o meu próprio levantamento para uma aferição final com os seus enviados oficiais.

Apresentei, na altura, no Conselho da Esfera, um relatório sobre a humanidade que o Senhor da Esfera analisou e, apossado de grande fúria, despachou de imediato, dizendo: "destruirei sobre a face da Terra, o homem que criei, todo o animal até ao réptil e até às aves dos céus porque, já estou arrependido de me ter posto a brincar com o barro"!

A fúria era tão grande que eu já estava arrependido de ser verdadeiro e justo no meu relatório. Porém, perante tanta violência que se havia instalado na Terra, concluí que alguma coisa deveria ser feita mas, sempre a interceder para tentar salvar, pelo menos, os justos que, certamente, existiriam ainda. Estive muitos dias reunido com o Senhor da Esfera, na procura de uma solução em que pudesse ser aplicada alguma da justiça divina.


Justiça, para todos

Enchi-me de coragem e disse: «Senhor, sabe que eu sou frontal nas minhas análises e, se me deu poderes alguns, para interceder pela raça humana, fui justo a analisar e, agora, peço-lhe que seja justo a decidir».

Partimos para o Conselho da Esfera onde estavam representados todos aqueles que o Senhor da Esfera entendeu colocar ao serviço da humanidade, cada um com a sua função e, onde todos os existentes, nesse Conselho, apresentaram, de sua justiça, uma defesa da humanidade.

Todos, por razões de interesse próprio, apresentaram o seu relatório, nenhum deles, convincente.

Eu, que já estava farto de tanta conversa, todas sem incutir ponto algum que fosse convicto na mudança de rumo que ali nos tinha reunido, que era salvar parte dos seres, homens e animais, que pudessem ainda ser recuperados para a continuação da vida na terra, já desesperado, disse: «Senhor, sempre continuarei na defesa das mesmas convicções que lhe apresentei nas nossas reuniões, para interpretação do meu relatório. Por isso, tenho de recolocar, doutra forma, nova solução para o problema».

"Sim, Ventor, pelos vistos, as tuas convicções, nunca esgotam" - disse o Senhor da Esfera mal humorado. "Apresenta a tua nova ideia".

«Senhor, não é bem uma nova ideia, é, isso sim, uma constatação. Colocou na Terra, o Velho Adão, arranjou-lhe uma companheira e deixou-o logo manietado com aquela provação, do come, não come, é ou não é, leis simples, tão simples que até a filha do mal conseguiu ludibriar aqueles pobres coitados.

Zangou-se logo com eles, votando-os ao ostracismo para fora do Éden e, ainda por cima, sujeita-os a todos os tipos de provações, obrigando Caim a matar o irmão só porque as ovelhas lhe comeram as culturas do lado de lá do marco e, também, porque incutiu no espírito deles a rivalidade provocada pelo ciúme, originado no facto de aceitar, de melhor grado, a ovelha oferecida por Abel, mais do que os produtos da horta, oferecidos por Caim. Nesa altura ainda não havia a moda dos vegetarianos!

Fui assim levado a fazer uma nova interpretação dos factos que nos trouxeram aqui e, a concluir que, afinal, o ser homem foi apenas colocado neste Planeta para nos divertir. Sempre achei que uma obra como o homem, inicialmente edificada com tanto carinho, fosse para dar continuidade a todo este mundo que poderia ser maravilhoso com a presença dele mas, pelos vistos:

Foi numa assembleia mais ou menos como esta pintura de Rafael Sanzio, Escola de Atenas, tirada da wikipédia

- os rios vão continuar a oferecer água, sem haver homens nem animais para bberem e se banharem neles;

- os vales vão continuar a ser verdes e, das suas fontes, vão continuar a brotar águas, límpidas e frescas, sem homens nem animais para as beber;

- nos céus, os raios de Apolo, continuarão a aquecer os ares do Planeta sem haver aves para que Apolo se deleite com a visão dos seus voos;

- E nós iremos deixar de observar os devaneios provocados pelos amores de Vénus e de Diana, as desventuras de Mercúrio e as estonteantes noitadas de Baco»;

E o Ventor continuou a enumerar as tristezas com o fim do mundo à vista, e prosseguiu ...

«Tenho notado a preocupação de Marte que, por razões diferentes das minhas, tem procurado defender a continuidade do homem neste planeta, tão lindo e azul».

E o Ventor, amigos, prosseguiu horas a fio na defesa da humanidade com todos, por razões diversas, muito atentos ao resultado final.

segunda-feira, 17 de junho de 2002

A minha mensagem

 Ventor 17.06.02

Quico Imperial

Chamo-me Francisco. Francisco Ventor! Sou mais conhecido por Quico. Não sei onde nasci, mas fui encontrado na cidade da Amadora a morrer de fome. Eis a minha história:

Eu sou um gato pensador. Posso dizer mesmo, "intelectual"! Diz o Ventor que sou como o Metistófeles de «The Cats». E também sofro! Ora se homem sofre, gato, parceiro do homem, nesta passagem terrena, também sofre. Eu sei como custa viver neste mundo inglório. Há uma espécie de ar poluido, um ar carregado nesta atmosfera que respiramos. Quando coloco a cabeça fora da janela para ver os meus amigos em cima de telheados zincados ou mesmo telhas, abarracados, sobre paredes distorcidas, em madeira, pedras ou chapas, eu vejo uma espécie de pavor que paira nos ares.

Os meus amigos passam fome, dão-lhes cacetada quando descem dos telhados, alguns são escaldados com água a ferver e até o meu amigo "Moisés", sofreu muito para conseguir curar as queimaduras que um homem negro lhe fez ao despejar-lhe uma frigideira de azeite ou óleo a ferver, em cima. O "Moisés" assustou-se muito e perdeu a capacidade para lutar pela sobrevivência ao perder as capacidades de comando que tinha conseguido, como líder, entre o seu Maralhal.

O "Moisés" era um valente gato preto, um líder, que foi queimado por um homem de côr, por mau íntimo, ou sei lá, por ter horror aos animais que lhe fazem concorrência na luta pela sobrevivência do dia a dia. Nessa luta inglória para o "Moisés", pois os animais não são tão manhosos como os homens, estes, na sua maioria são vingativos e injustos, sem perceberem muitas vezes os princípios de solidariedade que deveria existir entre todos os seres vivos. Neste mundo cruel, o "Moisés" foi vencido e morreu prematuramente. Foi arrepiante ter assistido aos últimos tempos do meu amigo "Moisés"!

Eu, que sou um gato felizardo, ao lado do Ventor, já tive, também, os meus tempos de infortúnio. Abandonaram-me, quando ainda precisava de mamar, sobre os telhados de que vos falo. Queria leite da minha mãe e não tinha, nem leite, nem mãe; queria comer e não tinha e, quando tinha, não podia comer.

Sempre que tentava abocanhar qualquer coisa mandada das janelas dos prédios, em frente, os mais velhos vinham e tiravam-ma. Quando todos fugiam, eu agarrava-me com as unhas a tudo que me era permitido: paredes de cimento, telhas, madeiras, chapas, ... Muitas vezes, no ímpeto da fuga, caía de costas e quase não tinha forças para me virar. Gritava a todo o mundo a pedir ajuda, aos meus companheiros de infortúnio e, até, aos eventuais seres que já são de outro mundo.

Os rapazes, maus como aqueles que os fizeram, tentaram matar-me à pedrada, com chumbo de flauber, ou à fisgada. Eu fugia sobre os telhados e escondia-me como podia mas, as forças começaram a faltar-me e acabei por me deixar apanhar. Dois rapazes, levaram-me para me dar à mãe de um deles, mas ela não me quis.

Levaram-me para me matar, a mim, um gatinho pequenino, esfomeado, já com os meus olhos azúis vidrados como vidros baços. Numa boa hora apareceu a "minha madrinha" que ralhou com os rapazes da idade dela e eles disseram-lhe que me iam matar porque não queriam ali gatos. Se calhar até me iriam torturar, mas ela pediu para me levar que ficaria comigo. Os rapazes pensaram e pediram-lhe uma moeda de 200$00 (hoje um euro) para ela me levar.
 
 Os pais dela, tinham e têm uma cadela, a minha amiga Tara e tiveram medo que ela me fizesse mal e não poderiam ficar comigo. Hoje somos grandes amigos. A "minha madrinha" falou com a tia, hoje a minha Dona, que ficou comigo mas, com medo que o Ventor não me quisesse, iria dar-me para um colega de Fernão Ferro que queria um gato para substituir outro que, alguns dias antes, tinha sido atropelado, na estrada, à porta de casa.
 
O Ventor chegou e, como tinha um coelho anão que vivia livre, em casa, o meu amigo Rafinho, disse logo que não me poderiam ter cá em casa com o coelho. Mas o Ventor gostou logo de mim, embora, à primeira impressão, logo que olhei o Ventor, eu me fosse esconder por detrás da aparelhagem. O Ventor e eu começamos a conviver mais e ele dava-me comer, mas olhava-me e dizia que eu iria ser um gato muito grande e que daria cabo do rafinho, num instante. Mas eu estava tão magrinho, esfomeado e sem forças e, olhando o coelho, até tinha medo que fosse o Rafinho a dar cabo de mim! Mas o Ventor pedia-me para sair de trás da aparelhagem porque tinha medo que eu morresse electrocutado e já não me deixou ir. Fazia-me festas e dizia para o Rafinho que, nós os três, tínhamos de nos entender e aqui andamos.
Mas agora, sem o nosso amigo Rafinho.

Por favor, não façam mal aos meus amigos!