segunda-feira, 2 de setembro de 2002

Glória a la Vida

 Ventor 02.09.02

«Ao passar pelas catacumbas da Net e, à medida que vou driblando o tempo e penetrando nos célebres artigos pictoriais existentes, achei uns retalhos de arte, daquela que foi uma vida de luta, de tristezas e de alegrias, de tempos primordiais à Pré-História, à qual eu assisti, cheio de vontade de fazer o tempo progredir na mente daqueles sisudos homens, aos quais eu pertenci e com os quais partilhei a limpidez das estrelas, das águas puras, dos ares límpidos, da pureza das chuvas, das neves e dos gelos.

 

Os gelos aterrorizavam

Caminhar na neve era terrível. Por isso, era necessário ficar sempre por perto 

Observar as pinturas que projectavam os animais nas paredes, era outro. Este bisonte, já foi apreciado pelo Ventor nas Grutas de Altamira

Perante o turbilhão de catástrofes que a Esfera fazia cair sobre o nosso Universo terreno e humano, com o fito de redimir os homens e que acho nunca conseguiu os intentos propostos, tal como eles, demandei cavernas obscuras onde, nos gelos quase perpétuos do quaternário e outras sequências intemporais a que os homens deram nomes científicamente comprovados ou não, permanecíamos vidas inteiras em que só poderíamos espreitar as estrelas para confirmar se o céu continuava a existir e, para mantermos a esperança de que todos os dias Apolo regressava para o cumprimento da praxe do seu sempre amigo Ventor.

Apanhar um pouco de sol para aquecer o corpo e a alma enquanto se dissertava sobre os famosos artistas, era um dos passa-tempos preferidos

As saídas desses buracos, alguns quase pareciam palácios actuais, pelo menos nas suas paredes internas e tectos, constituídas pelos rochedos das montanhas, enfeitadas por homens cheios de habilidade, apenas se dava por curtos intervalos de tempo, quando havia necessidade de reabastecer as despensas com os pedaços de carne que tínhamos que obter nas caçadas dos outros selvagens que, por uma questão de génio, ardil e de forças conjugadas, eram obrigados a ceder-nos as suas energias que iam armazenando no despontar da vida vegetal que angariavam por vales e encostas mais consentâneos às suas existências.


Observar as pinturas que projectavam os animais nas paredes, era outro. Este bisonte, já foi apreciado pelo Ventor nas Grutas de Altamira

Logo na saída das cavernas, todos os humanos prestavam, numa atitude de protração, a sua homenagem diária a Apolo, mensageiro da Esfera e, ao mesmo tempo, agradeciam ao Ventor, por ter tornado sua, a tarefa da sua protecção. Mas, quando os dias viravam autênticas noites, devido a intempéries originadas por lutas sem tréguas, no interior da Esfera e Apolo, por precaução, não se mostrava, todos julgavam que era, dessa vez, o nosso fim. E antes do términus, nada como colocar, em prol do colectivo, a capacidade de cada um.

Assim, ciclo após ciclo, século após século, milénio após milénio, todos os seres humanos, através dos seus mais habilidosos representantes tinham, por engenho e arte, um processo de deixar para a posteridade, uma demonstração do que teria sido a sua vida ao longo da luz e das trevas, nas venturas do tempo com os seus companheiros de caminhada.

Eu incentivei a que assim procedessem, para que, um dia, na vastidão do espaço e do tempo, todos os vindouros se fossem apropriando dos progressos que seus antepassados foram conseguindo, ajudando-os a continuarem sempre, em diferentes e inovadoras tarefas, que levassem àvante um fluir constante daquilo a que, com os tempos, viemos a chamar civilização, cultura, arte, ... enfim, progresso.

Achei giro que, milénios depois de façanhas milenares, viesse a encontrar em bits de quase nada, tanta grandeza expurgada dessas cavernas quase eternas que vão resistindo a todos os eventos que a natureza, os homens e as imprecações da Esfera as põem à prova.

Aqui, em Lascaux, tal como em Altamira, um dos apaixonados de Diana exibe os êxitos das suas pinturas 

Por isso, gostaria de vos deixar aqui muitas maravilhas da Arte Rupestre, porque foi executada no único papiro conhecido na época. A pedra!

Penso que ainda por lá poderei encontrar pinturas que foram minhas e que representarão as grandes caçadas que eu e Diana levamos a cabo em vales sem fim, através dos tempos e, no aconchego do calor e do amor que nos aqueciam, colocamos os nossos traços de representação de uma vida maravilhosa, própria dos deuses e, no ensino permanente de como fazer a espécie humana levar por diante a sua continuidade neste rodar permanente desta eterna Esfera a que pertencemos».

Comentários

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Tina

27.01.11

Gostei muito, como sempre!
Bjs!
Melhoras!

quinta-feira, 29 de agosto de 2002

O Ventor no Princípio

 Ventor 29.08.02

... No Princípio, era a Escuridão Total!

Nos Princípios do Mundo ...

... é verdade amigos. O vosso amigo Quico, ouve cada coisa ao Ventor! Ouçam só, esta história!

No princípio - diz o Ventor - eram as trevas. Só os deuses habitavam o mundo. A vida dos deuses tornou-se monótona, triste mesmo. Viviam nas trevas e para as trevas!

Um dia, o Todo Poderoso, que já começava com dificuldades em ter mão nos seus pares da Esfera, achou que devia mudar tudo. Ouviu o Concelho da Esfera e apresentou o seu novo projecto. A Criação do Homem! Mas, achou que o homem não se iria dar bem com as trevas. Então, começou a matutar nas hipóteses que tinha para fazer uma coisa nova, completamente diferente do que até ali havia. Mas esse projecto original, tornou-se numa confusão muito grande. Para isso, começou por semear, no espaço escuro, umas estrelinhas luminosas. Com o andar dos tempos, as estrelinhas começaram a discutir umas com as outras. Qual delas a mais bela, a que tinha mais luz, a que seria a mais famosa, a que mais agradaria ao futuro boneco que o Criador iria colocar num qualquer ponto do Universo para as contemplar.

Começou, assim, a Primeira Guerra das Estrelas, não aquela que já vimos nos cinemas e TV's - eu já a vi, na TV, com o Ventor. Mas outra muito mais complicada! Houve muitas explosões que mais pareciam fogos de artifício, mas houve, muito pior que isso, muitas ações de canibalismo. As estrelas absorveram-se umas às outras e, ainda hoje, vivem essa guerra, desmesuradamente.

Apesar de tudo, o Criador todos os dias apresentava obras novas. Depois, os seus pares desse Reino Universal, já gozavam com as brincadeiras que o Criador inventava para passarem o tempo. Chegou a fazer vários bonecos de barro, ou argila se preferirem, ou até mica, ... sei lá! Depois passaram uma eternidade a escolher o boneco que iria ser o original representante da futura massa de gente que o mundo viria a suportar. Os vários bonecos foram espalhados por várias partes do universo. Uns mais gorduchinhos, outros mais fininhos, outros com antenas, ... sei lá quantas formas!

Uma das muitas imagens de Apolo, o grande amigo do Ventor, a tocar a sua cítara

Depois começaram a chamar-lhes vários nomes, como marcianos, venusianos, ... e, depois, já mais perto dos nossos tempos de homens, gatos ... já lhes chamaram extraterrestres, ovnis ... para não haver mais confusões. Havia por lá uns tais mauzões, chamados ... nomes esquisitos como Marduk, que os queriam levar para umas espécies de coutadas espalhadas pelas galácticas. Enfim, os humanos e todos os outros seus congéneres sofreram muito com esses deuses acabados de sair, eles também, da escuridão. Mas vamos esquecer os extraterrestres e pegar na história do avozinho da humanidade. O Criador ia colocando uns pedacinhos de barro amassado na água até fazer um grande boneco. Esse boneco era chacota da maioria dos deuses, que mais faziam de refilões como os que andam por aí a estragar a vida à pessoas. Cada um tentava dar opinião sobre o boneco e meter o bedelho, mas o Criador impôs-se. Aquilo era obra dele e não queria metediços nessa bela obra! Os únicos que deram uma certa ajuda foram, Apolo, Neptuno, Vénus, Diana, ... e poucos mais.

Apolo pediu para lhe dar calor, luz, sabedoria ... Vénus pediu par lhe insuflar amor, compreensão, dignidade ... Diana, pediu para lhe dar alguma luz que Apolo desperdiçava durante a sua caminhada e ser ela a reflecti-la para a humanidade, mitigando mais uns poucos a grande escuridão. Neptuno queria que ele fosse dependente da sua água, ... enfim!

O Criador achou, então, que estes ficassem por aqui, nesta quadratura do Universo e acompanhassem de perto os problemas do boneco que iria habitar neste ponto a que chamaram Terra e a que o Ventor chama de Planeta Azul.


 Planeta Terra, sempre azul visto de outros azimutes

Marduk - Sempre dominador e pronto a causar transtornos ao Planeta Azul

Assim, como sempre, em todos os lados, a sociedade dos deuses era uma sociedade de discórdias e mesmo tendo eles respeito ao Criador, muitas vezes aventuravam-se a passar das marcas. Marte dizia que haveria de arranjar maneira de colocar o homem a lutar com qualquer coisa e Marduk queria fazer do homem uma espécie de animal para sua serventia. Marduk entrou no sítio do boneco, aquilo a que os homens chamam oficina e gritou para Apolo:

"atão"!!!

Isto tudo porque, ao boneco, ainda não tinha sido insuflada vida. Apolo disse logo para Marduk: "já tem nome. «Adão»!! E assim foi. O Criador gostou e chamou-lhe Adão.

Não, não! ... isto é mesmo o Princípio! 

quarta-feira, 10 de julho de 2002

Ventor e o Bafo

  Ventor 10.07.02

Diz-me assim, o Ventor

«Eu, há milénios que por aqui ando e procuro cumprir os desígnios do Todo-Poderoso, Senhor da Esfera - O Criador, Aquele de onde tudo emana;

Adão e Eva, foto tirada da Wikipédia

há milénios que desde que a Luz é Luz e a Noite é Noite, vivo intensamente, de estrela em estrela, de planeta em planeta e suporto o bafo da vida, desde que a sapiência do Senhor da Esfera teve a bondade de projectar, num montículo de mica, um boneco em forma de homem e no qual insuflou o fôlego da vida, o transformou em alma vivente e lhe chamou Adão;

Há muitos, muitos milénios que vi o Senhor da Esfera plantar um jardim a que chamou Eden para servir o homem, fazendo brotar da terra todas as árvores e todas as maravilhas para sua satisfação;

há milénios que o Senhor da Esfera, para sua maior satisfação, fez nascer um rio que se dividia em quatro, com os seguintes nomes:

Psion, que rodeava a terra de Havila, onde havia ouro;

Gion, que rodeava toda a terra de Cush;

Hidequel, que se dirigia para o lado do oriente da Assíria (hoje chamado Tigre);

Eufrates, o rio de que muito ouviremos falar por amizade a Nemrod.

Rio Eufrates tirado Wikipédia de Hassan Janali, umsoldado americano

Há milénios que assisti à primeira catalogação da história da humanidade feita por Adão, pois o Senhor da Esfera entendeu, e bem, que o homem deveria ter uma ocupação, encarregando-o, assim, de atribuir os nomes a todas as coisas por ele criadas.

Há milénios que também vi o Senhor da Esfera, devido à falta de matéria prima, roubar, por graça, uma costela ao Adão, para que também ele partilhasse da construção dessa obra prima que é a mulher e, fizesse dela, sua companheira.

Há milénios que, por causa dela, assisti à primeira desavença neste Planeta Azul. Vi o Senhor da Esfera furioso com Adão e expulsá-lo do Eden que ficou guardado por dois Querubins, tendo Adão que ir fazer pela vida, para fora de portas, sendo despojado de todas as maravilhas que o Senhor tinha feito para ele.

Há milénios que vi, também, a primeira fiação que o mundo conheceu, pois Adão e Eva viram-se obrigados a fazer a sua própria alfaiataria, utilizando as folhas de figueira para fazerem as túnicas e aventais que passaram a usar. Não tenho a certeza das linhas usadas mas parece-me que foi fio de cãnhamo. Mas recordo, muito bem, a oferta que Eva me fez de um tecido igual ao deles para, poder comparecer, com eles, naquele belo jardim. O fio principal que rodeava a cintura e segurava as folhas de figueira, recordo-me bem, era de cãnhamo e penso que os outros também.

Assim, tudo o que era bom se foi num ápice e, pior ainda, é que as mulheres ficaram sempre com a mania de se intrometerem nas coisas dos homens.

Fora do jardim, no chão duro de onde tinham brotado, Adão e Eva tiveram de aprender a tratar as terras e os animais e tiveram as suas primeiras criancinhas que, cresceram no encalço de seus pais mas apareceram os problemas das divisões das terras tendo Caim morto Abel por causa de um marco. As ovelhas de Abel passaram para lá do marco das hortas de Caim e, como o mundo sabe, tudo acabou mal para os dois irmãos, dando-se assim, o primeiro homicídio nos humanos, originado no eterno princípio da sua luta entre o pastorício e os cuidados agrícolas. Mas, só com dois, já os marcos existiam para a divisão da propriedade, imaginem como isto andará hoje!

Adão e Eva tiveram mais um filho, a que deram o nome de Seth mas, eu, Ventor, que tive de me arredar para outros azimutes da galáctica por razões que estavam, à altura, para além dos interesses terrenos, perdi a sequência da prole com origem em Adão e Eva, nunca chegando a saber, a que ponto da galáctica, Caim e Seth, foram buscar as suas esposas. Soube, no entanto, que tiveram filhos e filhas, netos e netas, bisnetos, tataranetos ... os quais deram continuação à prole, que tornaram grandiosa, tendo a identificação, de muitos deles, sido perdida na vastidão dos tempos.

Mais tarde, deixei o extremo da Galáctica e voltei à Terra e, dentre todos, relacionei-me mais com Lamech que veio a ser o pai do meu grande amigo, o nosso famoso Noé.

Aconteceu que encontrei instalada corrupção geral na humanidade. Havia já, instalados na Terra, gigantes e varões de fama, uma espécie de jagunços que dominavam e se assenhoravam de toda a gente.

Verifiquei todos os males instalados, concluindo que, a maldade do homem se multiplicava sobre a Terra e que toda a imaginação dos seus pensamentos era continuamente má. Esta foi a mesma conclusão a que tinham chegado os anjos enviados pelo Senhor da Esfera que me mandou fazer o meu próprio levantamento para uma aferição final com os seus enviados oficiais.

Apresentei, na altura, no Conselho da Esfera, um relatório sobre a humanidade que o Senhor da Esfera analisou e, apossado de grande fúria, despachou de imediato, dizendo: "destruirei sobre a face da Terra, o homem que criei, todo o animal até ao réptil e até às aves dos céus porque, já estou arrependido de me ter posto a brincar com o barro"!

A fúria era tão grande que eu já estava arrependido de ser verdadeiro e justo no meu relatório. Porém, perante tanta violência que se havia instalado na Terra, concluí que alguma coisa deveria ser feita mas, sempre a interceder para tentar salvar, pelo menos, os justos que, certamente, existiriam ainda. Estive muitos dias reunido com o Senhor da Esfera, na procura de uma solução em que pudesse ser aplicada alguma da justiça divina.


Justiça, para todos

Enchi-me de coragem e disse: «Senhor, sabe que eu sou frontal nas minhas análises e, se me deu poderes alguns, para interceder pela raça humana, fui justo a analisar e, agora, peço-lhe que seja justo a decidir».

Partimos para o Conselho da Esfera onde estavam representados todos aqueles que o Senhor da Esfera entendeu colocar ao serviço da humanidade, cada um com a sua função e, onde todos os existentes, nesse Conselho, apresentaram, de sua justiça, uma defesa da humanidade.

Todos, por razões de interesse próprio, apresentaram o seu relatório, nenhum deles, convincente.

Eu, que já estava farto de tanta conversa, todas sem incutir ponto algum que fosse convicto na mudança de rumo que ali nos tinha reunido, que era salvar parte dos seres, homens e animais, que pudessem ainda ser recuperados para a continuação da vida na terra, já desesperado, disse: «Senhor, sempre continuarei na defesa das mesmas convicções que lhe apresentei nas nossas reuniões, para interpretação do meu relatório. Por isso, tenho de recolocar, doutra forma, nova solução para o problema».

"Sim, Ventor, pelos vistos, as tuas convicções, nunca esgotam" - disse o Senhor da Esfera mal humorado. "Apresenta a tua nova ideia".

«Senhor, não é bem uma nova ideia, é, isso sim, uma constatação. Colocou na Terra, o Velho Adão, arranjou-lhe uma companheira e deixou-o logo manietado com aquela provação, do come, não come, é ou não é, leis simples, tão simples que até a filha do mal conseguiu ludibriar aqueles pobres coitados.

Zangou-se logo com eles, votando-os ao ostracismo para fora do Éden e, ainda por cima, sujeita-os a todos os tipos de provações, obrigando Caim a matar o irmão só porque as ovelhas lhe comeram as culturas do lado de lá do marco e, também, porque incutiu no espírito deles a rivalidade provocada pelo ciúme, originado no facto de aceitar, de melhor grado, a ovelha oferecida por Abel, mais do que os produtos da horta, oferecidos por Caim. Nesa altura ainda não havia a moda dos vegetarianos!

Fui assim levado a fazer uma nova interpretação dos factos que nos trouxeram aqui e, a concluir que, afinal, o ser homem foi apenas colocado neste Planeta para nos divertir. Sempre achei que uma obra como o homem, inicialmente edificada com tanto carinho, fosse para dar continuidade a todo este mundo que poderia ser maravilhoso com a presença dele mas, pelos vistos:

Foi numa assembleia mais ou menos como esta pintura de Rafael Sanzio, Escola de Atenas, tirada da wikipédia

- os rios vão continuar a oferecer água, sem haver homens nem animais para bberem e se banharem neles;

- os vales vão continuar a ser verdes e, das suas fontes, vão continuar a brotar águas, límpidas e frescas, sem homens nem animais para as beber;

- nos céus, os raios de Apolo, continuarão a aquecer os ares do Planeta sem haver aves para que Apolo se deleite com a visão dos seus voos;

- E nós iremos deixar de observar os devaneios provocados pelos amores de Vénus e de Diana, as desventuras de Mercúrio e as estonteantes noitadas de Baco»;

E o Ventor continuou a enumerar as tristezas com o fim do mundo à vista, e prosseguiu ...

«Tenho notado a preocupação de Marte que, por razões diferentes das minhas, tem procurado defender a continuidade do homem neste planeta, tão lindo e azul».

E o Ventor, amigos, prosseguiu horas a fio na defesa da humanidade com todos, por razões diversas, muito atentos ao resultado final.

segunda-feira, 17 de junho de 2002

A minha mensagem

 Ventor 17.06.02

Quico Imperial

Chamo-me Francisco. Francisco Ventor! Sou mais conhecido por Quico. Não sei onde nasci, mas fui encontrado na cidade da Amadora a morrer de fome. Eis a minha história:

Eu sou um gato pensador. Posso dizer mesmo, "intelectual"! Diz o Ventor que sou como o Metistófeles de «The Cats». E também sofro! Ora se homem sofre, gato, parceiro do homem, nesta passagem terrena, também sofre. Eu sei como custa viver neste mundo inglório. Há uma espécie de ar poluido, um ar carregado nesta atmosfera que respiramos. Quando coloco a cabeça fora da janela para ver os meus amigos em cima de telheados zincados ou mesmo telhas, abarracados, sobre paredes distorcidas, em madeira, pedras ou chapas, eu vejo uma espécie de pavor que paira nos ares.

Os meus amigos passam fome, dão-lhes cacetada quando descem dos telhados, alguns são escaldados com água a ferver e até o meu amigo "Moisés", sofreu muito para conseguir curar as queimaduras que um homem negro lhe fez ao despejar-lhe uma frigideira de azeite ou óleo a ferver, em cima. O "Moisés" assustou-se muito e perdeu a capacidade para lutar pela sobrevivência ao perder as capacidades de comando que tinha conseguido, como líder, entre o seu Maralhal.

O "Moisés" era um valente gato preto, um líder, que foi queimado por um homem de côr, por mau íntimo, ou sei lá, por ter horror aos animais que lhe fazem concorrência na luta pela sobrevivência do dia a dia. Nessa luta inglória para o "Moisés", pois os animais não são tão manhosos como os homens, estes, na sua maioria são vingativos e injustos, sem perceberem muitas vezes os princípios de solidariedade que deveria existir entre todos os seres vivos. Neste mundo cruel, o "Moisés" foi vencido e morreu prematuramente. Foi arrepiante ter assistido aos últimos tempos do meu amigo "Moisés"!

Eu, que sou um gato felizardo, ao lado do Ventor, já tive, também, os meus tempos de infortúnio. Abandonaram-me, quando ainda precisava de mamar, sobre os telhados de que vos falo. Queria leite da minha mãe e não tinha, nem leite, nem mãe; queria comer e não tinha e, quando tinha, não podia comer.

Sempre que tentava abocanhar qualquer coisa mandada das janelas dos prédios, em frente, os mais velhos vinham e tiravam-ma. Quando todos fugiam, eu agarrava-me com as unhas a tudo que me era permitido: paredes de cimento, telhas, madeiras, chapas, ... Muitas vezes, no ímpeto da fuga, caía de costas e quase não tinha forças para me virar. Gritava a todo o mundo a pedir ajuda, aos meus companheiros de infortúnio e, até, aos eventuais seres que já são de outro mundo.

Os rapazes, maus como aqueles que os fizeram, tentaram matar-me à pedrada, com chumbo de flauber, ou à fisgada. Eu fugia sobre os telhados e escondia-me como podia mas, as forças começaram a faltar-me e acabei por me deixar apanhar. Dois rapazes, levaram-me para me dar à mãe de um deles, mas ela não me quis.

Levaram-me para me matar, a mim, um gatinho pequenino, esfomeado, já com os meus olhos azúis vidrados como vidros baços. Numa boa hora apareceu a "minha madrinha" que ralhou com os rapazes da idade dela e eles disseram-lhe que me iam matar porque não queriam ali gatos. Se calhar até me iriam torturar, mas ela pediu para me levar que ficaria comigo. Os rapazes pensaram e pediram-lhe uma moeda de 200$00 (hoje um euro) para ela me levar.
 
 Os pais dela, tinham e têm uma cadela, a minha amiga Tara e tiveram medo que ela me fizesse mal e não poderiam ficar comigo. Hoje somos grandes amigos. A "minha madrinha" falou com a tia, hoje a minha Dona, que ficou comigo mas, com medo que o Ventor não me quisesse, iria dar-me para um colega de Fernão Ferro que queria um gato para substituir outro que, alguns dias antes, tinha sido atropelado, na estrada, à porta de casa.
 
O Ventor chegou e, como tinha um coelho anão que vivia livre, em casa, o meu amigo Rafinho, disse logo que não me poderiam ter cá em casa com o coelho. Mas o Ventor gostou logo de mim, embora, à primeira impressão, logo que olhei o Ventor, eu me fosse esconder por detrás da aparelhagem. O Ventor e eu começamos a conviver mais e ele dava-me comer, mas olhava-me e dizia que eu iria ser um gato muito grande e que daria cabo do rafinho, num instante. Mas eu estava tão magrinho, esfomeado e sem forças e, olhando o coelho, até tinha medo que fosse o Rafinho a dar cabo de mim! Mas o Ventor pedia-me para sair de trás da aparelhagem porque tinha medo que eu morresse electrocutado e já não me deixou ir. Fazia-me festas e dizia para o Rafinho que, nós os três, tínhamos de nos entender e aqui andamos.
Mas agora, sem o nosso amigo Rafinho.

Por favor, não façam mal aos meus amigos!