sábado, 2 de agosto de 2003

Trilhos de Mundos

 Ventor 02.08.03

Amigos, deixo-vos aqui um rascunho de uma carta do Ventor enviada para o Pelágio, em Covadonga, quando este se preparava para enfrentar, numa batalha de vida ou de morte, os mouros que, desde Gibraltar, tinham subido, anafadamente, de monte em monte, de serra em serra, de rio em rio, para terminarem, uma vez por todas, com a resistência que os cristãos estavam a levar a cabo, contra as hostes dos glutões de além-Atlas.

Esta carta foi escrita pelo Ventor, em latim, numa casca branca de vidoeiro, uma vez que ainda não tinham sido descobertas as pastas de celulose, nem havia papiros na Península Ibérica, nem folhatos que envolviam as espigas de milho. O Ventor chegou a pensar pedir aos seus amigos incas, folhatos de espigas de milho para escrever a suas missivas em material leve mas, ao verificar que a casca do vidoeiro era ideal para escrever, utilizando tinta azul sobre ela, foi assim que passou a proceder. Seria terrível enviar como missiva uma mensagem numa pesada rocha de ardósia, por montes e vales pois, nessa altura, ainda passavam despercebidos os futuros caminhos de Santiago. Entre as várias lenga-lengas do Ventor, estava esta passagem:

«Amigo Pelágio,

Quando o meu amigo Alexandre venceu os persas e chegou à capital do, então, mais poderoso império do mundo, o que ele quis foi descansar e relaxar! Habituado a dormir ao relento nos quase desertos gélidos da Anatólia e infernais do Médio Oriente, atirou com o corpo para cima de uma tarimba e disse: "contas, só amanhã"!

Como vocês devem calcular, por aí, a guerra sempre foi feita de pilhagens e Alexandre, era um grande homem, bastante evoluído para a época, mas fazia parte da praxe da guerra, aquela famigerada leviandade dos homens de quererem pilhar. Pilhar tudo! Fosse o que fosse, mesmo que, de seguida, tivessem de atirar com as matérias pilhadas para o lado, devido ao estorvo em que se tornavam.

Mas Alexandre, fazia-o e, ao mesmo tempo, doía-lhe, no seu interior, esta maneira de estar na malfadada guerra. Os despojos de guerra eram sagrados e era uma das maneiras de pagar aos homens que lutavam a seu lado.

No entanto, apesar de muito cansado e não querer fazer contas, voltou-se para mim e disse: "Ventor, acho que vou ficar com estes instrumentos! Estão a fazer-me cá uma cobiça! Só em lembrar-me que esse sacana do Dario se deleitava ao som desses instrumentos põe-me raivoso! Acho que vou levar estas bugigangas comigo até ao fim do mundo"!

Estátua de Pelágio, em Covadonga

Mas os persas quiseram ser prazenteiros e logo imaginaram inventar um grupo de músicos com os melhores instrumentos musicais e partituras que havia na época! Alexandre, ao ouvir estes instrumentos sentiu que estava, realmente, no paraíso e que a sua mania de ser um "deus" tornava-se cada vez mais uma certeza, pois só os deuses poderiam ouvir aquelas melodias!

Entre esses instrumentos, fixei uns quantos, mas não poderei enviar-te as suas figuras ou alguns esboços porque, não tenho tempo nem jeito para o desenho e, porque as fotos, só alguns séculos mais tarde vão ser inventadas.

Quando esse mouro pimpão chegar junto dos teus homens e for derrotado, pois é assim que vai ser, obriga-o a deixar para vós os instrumentos de música que eles, também, tal como os persas do tempo de Alexandre, têm e sabem usar. Entre os seus instrumentos estão o alaúde, a pandeireta, a flauta, e mais umas coisas que eles herdaram dos persas e que foram passando de mão em mão e, também, foram sendo transformados. Obriga-os a tocar, cantar e dançar para ti, porque isso vai-te divertir e, depois, não precisas de os matar a todos. Vamos ter de aprender a conviver, por aqui, muitos anos, uns com os outros porque, para além do mais, é do confronto de civilizações que, um dia, sairá um mundo melhor».

Mulher a tocar santur, numa pintura do Palácio de Hasht-Behesht, em Isfahan, Irão

Depois o Ventor enumerou, para Pelágio das Astúrias, alguns instrumentos com que Alexandre ficou:

«uma cítara, com quatro cordas e, a seu lado, encontrava-se uma espécie de pandeireta e os livros da sabedoria;

Um santar com 72 cordas arrumadas em grupos de quatro;

Um Tar com 6 cordas, 5 de aço e uma de latão;

Um Kamanche com 4 cordas metálicas e a caixa de madeira, em forma de hemisfério, é coberta por uma membrana de pele de carneiro;

Uma Nay, uma espécie de flauta com normalmente, seis buracos à frente e um atrás. Este é um dos meus instrumentos musicais favoritos, quando é bem tocado. Normalmente, o som que sai de uma flauta é motivado pela tristeza contida no espírito de quem a usa;

Um Dombak, é o "chefe" dos instrumentos de percursão da música clássica pérsica. É um bombo cravado numa peça de madeira forrada com pele de carneiro por cima e com abertura por baixo;

Outra rababa, tal como a que Alexandre tinha comprado ao beduíno.

Pintura: os músicos da Caravágio

Estes são alguns dos instrumentos musicais que fizeram as delícias de Alexandre por terras da Ásia ajudando, assim, a mitigar a vontade que se fazia sentir no seu espírito e no seio dos seus homens, de voltarem, apressadamente, aos vales e às montanhas da Macedónia. Não eram muitos mas, já quase davam para fazer uma daquelas orquestras que um dia irão valorizar os grandes salões burgueses que transformarão a Europa».

Quanto ao resto, vocês já sabem! Pelágio das Astúrias, venceu por duas vezes os mouros comandados por Munuza. A primeira vez, em Covadonga e, a segunda vez, em Proaza. Aqui, em Proaza, Munuza, perdeu a vida em combate, mas como já sabia que o Ventor aconselhara Pelágio a ficar com os instrumentos musicais que pudesse, quebrou, cheio de raiva, o seu alaúde contra uma rocha. Há quem diga que, ainda hoje, quem lá passar, ainda poderá ouvir o som terrível do alaúde a quebrar-se e ver uma moura encantada, de braços levantados a dançar e a tocar pandeireta, enquanto um soldado mouro chora Munuza com a sua flauta


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Bucéfalo, o cavalo de Alexandre

 Ventor 02.08.03

Mais uma história do Ventor para eu contar aos nossos amigos ...

Diz o Ventor que o Bucéfalo foi o cavalo de guerra do seu amigo Alexandre Magno.

Alexandre e o Ventor, se não sabem ficam a saber, foram grandes amigos. Alexandre era um puto endiabrado e o Ventor, sempre o mesmo velhadas admirava-o. Como vocês sabem, Alexandre era filho de Filipe II, rei da Macedónia e de Olímpia, a sua mãe, filha de uma terra a que chamavam Epiro (hoje Albânia).

Diz ainda o Ventor que Alexandre gostava muito de cavalos e montava-os à mongol ou, como o Ventor fazia, quando pequeno, pelas suas Montanhas Lindas. Agarrava-lhes as crinas e saltava-lhe para cima do lombo.


Alexandre e Bucéfalo, ambos lutaram até à morte

A Tessália, ao norte da velha Grécia, era vizinha da Macedónia, a sul e era um país famoso porque se dedicava à criação dos melhores cavalos de então. Alexandre era perdido pelas suas montanhas. Ele também tinha Montanhas Lindas como o Ventor, mas o Alexandre, ainda jovem, era muito ambicioso, até pelo país criador de cavalos. Ainda puto, entrava nos seus vales e trepava às suas montanhas, apenas para ver os seus cavalos, verdadeiros alazões, cheios de beleza e força.

Um dia, encontraram-no, cercaram-no e prenderam-no. Mas o Ventor interveio e os tessálicos, ao reconhecerem as razões do Ventor, em defesa de Alexandre, deixaram-no partir. No meio dos tessálicos encontrava-se Filónio, também um amigo do Ventor, que o ajudou, reconhecendo que Alexandre era o filho do rei Filipe da Macedónia.

Um dia, Filónio da Tessália convidou Alexandre a voltar aos vales e montanhas dos grandes cavalos. Ele apreciava a cavalgada de muitos daqueles cavalos, ainda selvagens e a argúcia dos tessálicos em amestra-los.

Ao vê-los, já na sua imaginação estava o título da canção, Against de Wind, usado pelo Bob Seger, milénios depois e de que o Ventor tanto gosta quando, ao som da canção, se imagina agarrado às crinas de um cavalo, galopando contra o vento!

Para ferrar o Bucéfalo estava sempre presente o melhor ferreiro da Macedónia

Mas no meio de todo o seu entusiasmo, Filónio verificou que o puto, além de gostar de todos os cavalos e de ter jeito para eles, apreciou especialmente, um. Filónio perguntou-lhe: "Alexandre, gostas muito daquele cavalo, não gostas"? Ele sorriu e partiu para a Macedónia ainda mais encantado com os cavalos da Tessália.

Como o pai de Alexandre, Filipe da Macedónia, era um potencial comprador de cavalos para as batalhas que já tinha desenhadas na sua cabeça, Filónio, um dia apareceu, em Pela, capital da Macedónia, com o cavalo que ficara no olho de Alexandre. Alexandre saiu das cavalariças de Filipe, de mãos na cintura, a olhar o cavalo como se estivesse a ver a coisa mais maravilhosa do mundo.

Alexandre aproximou-se e pediu a Filónio para o deixar montar aquela beleza de animal e, ao tentar tocar-lhe, o cavalo levantou-se todo no ar, apoiado nas patas de trás, a relinchar como se Alexandre fosse seu inimigo e o quisesse matar.

"Nem penses" - disse Filónio. "Como vês, este cavalo não deixa que ninguém o monte. Primeiro vai ter de ser domado. Tens que pedir ao teu pai os domadores e, depois sim, poderás monta-lo". Filónio tinha dito ao Ventor que aquele cavalo só podia ser digno de um grande rei e, por isso, como gostava do puto e esperava fazer negócios com o pai, ia oferecer-lhe o cavalo.

Alexandre tinha 16 anos e mais parecia um homem que um puto devido ao seu aspecto físico, à sua força e à sua mentalidade de adulto. Desatou a correr direito aos domadores dos cavalos de seu pai a gritar para irem tentar domar o Bucéfalo e continuou a correr para ir informar o pai que ia ter um cavalo novo.

O pai alvoroçou-se também e ficou cheio de curiosidade pelo facto de ver tanta alegria estampada no rosto do filho, ao mesmo tempo que observava como ele já era um homem. Virou-se para o Ventor que chegara com Filónio e confidenciou-lhe: "já tenho substituto"!

Lá seguiram todos para as cavalariças, onde havia uma grande algazarra! Nenhum domador de cavalos conseguia montar o Bucéfalo!

Os domadores e vários escudeiros reais, tentaram, vezes sem conta, montar o Bucéfalo, mas o animal era muito arisco e acabaram por o considerar indomável.

Já se falava, no meio da assistência, que iria dar os melhores bifes de cavalo comidos até então. Mas Alexandre nunca virava as costas a uma boa luta e, aquela, iria ser a primeira grande luta da sua vida. Alexandre prontificou-se a montar o cavalo e apostou com Filónio como seria capaz de montar o Bucéfalo e desafiou-o para uma aposta. Se falhasse, sentiria ser, para si, uma grande derrota e pagaria a Filónio o valor do animal que era 17 talentos de ouro. Na Macedónia havia muito a mania dos jogos e faziam-se apostas por tudo e por nada. Por isso, Alexandre teria de apostar forte pois perder seria uma fraqueza e a aposta seria o fermento da luta que iria travar naquela tentativa de montar o Bucéfalo.

Alexandre ao ver as várias tentativas de aproximação diagnosticou o problema do Bucéfalo, ao aperceber-se que o animal se assustava com a própria sombra e com o aproximar das sombras dos seus domadores e, agora, precisava de encontrar o remédio. Apolo, voltou a olhar o Ventor e sorriu. «A luz, Alexandre, a luz»! E não precisou de explicar mais nada. Alexandre olhou Apolo, voltou a olhar o Ventor e sorriu. A luz de Apolo quase cegava Alexandre e ele pegou no Bucéfalo pelo cabresto e virou-o de frente para Apolo. Por momentos o cavalo cegou com a luminosidade intensa de Apolo que fazia jus da sua pujança sempre que o Ventor se encontrava por aquelas paragens. Nesse momento, já não havendo qualquer sombra para o cavalo olhar, Alexandre saltou-lhe para cima do lombo e já não valeu a pena ao Bucéfalo saltar e atirar coices para o ar. Mais uns segundos e Alexandre tinha o seu cavalo domado, conseguindo o que mais ninguém fora capaz - domar o Bucéfalo.

As ferradurs do Bucéfalo eram feitas e tratadas com o maior carinho do seu ferrador

O Ventor sorriu para Alexandre apoiando a sua bravura e determinação e felicitando-o por ser ele a domar aquele cavalo, o tal que o Filónio lhe tinha confidenciado que só podia ser digno de um grande rei.

O Ventor já tinha passado pelas mesmas dificuldades quando domou o seu cavalo branco de nome Antar e Apolo lhe tinha pregado a mesma partida. Mais tarde, o Ventor acompanhou as correrias de Alexandre montando aquele belo cavalo cuja fugacidade lhe deu vitórias em todas as grandes batalhas que travou. Alexandre confidenciou ao Ventor que o Bucéfalo apenas o deixava montar a ele e mais ninguém. Mas quando Alexandre se enroscava no velho palácio do Nabuco a ouvir o som das Rababas, o Ventor montava o Bucéfalo e iam os dois fazer caminhadas à sombra dos chorões que ladeavam os canais que davam acesso ao rio Eufrates e que faziam parte da grande obra de Nabuco.

Mas tudo acaba e o Bucéfalo também. O Bucéfalo foi ferido nas campanhas da Índia. Velho e doente, tentou prestar a sua ajuda no regresso de Alexandre. Alexandre parou para descansarem num local próximo de Taxila que hoje fica no Paquistão. O Bucéfalo estava deitado no chão com a sua cabeça virada para Ocidente, à sombra de uns arbustos, se calhar, a pensar nos tempos felizes das suas montanhas da Tessália, nas correrias desenfreadas ao lado da sua mãe sob aquele lindo céu azul, habituados a lutar contra os lobos e Alexandre, olhou-o nos olhos e perguntou-lhe: "como vais companheiro"? O Bucéfalo tentou soerguer a cabeça e olhar Alexandre mas, de repente, deixou-se tombar e fechou os olhos para nunca mais os abrir.

Alexandre abraçou o seu companheiro de todas as batalhas e chorou silenciosamente sobre o seu cadáver ao mesmo tempo que recordava os belos tempos que tinham passado juntos, antes e depois de terem passado o Helesponto (hoje os Dardanelos). Tinha sido uma vida de lutas, onde os dois faziam um corpo só. Um corpo de batalha! Alexandre, abraçado ao seu cavalo, ouvia, horrorizado, os sons gravados no seu cérebro. Muitos gritos e algazarras! Os gritos de Queroneia, ainda no meio das suas gentes e, depois, outras pequenas grandes batalhas, como Granico perto às muralhas destruídas da velha Tróia onde, sobre o seu cavalo, homenageou o grego Aquiles e o troiano Príamo. Depois os gritos e as algazarras da batalha de Isso, onde ficou a dever a sua vida ao Bucéfalo e, mais tarde, em Gaugamela, no actual Iraque e onde derrotou para sempre o rei da Pérsia, Dario II

Alexandre ainda era um jovem com 32 anos, mas fez uma retrospectiva sobre o seu passado glorioso, abraçado ao seu cavalo e, agora, longe de casa, já não tinha quem, com confiança, lhe "lesse" o seu futuro. Ali, enquanto chorava sobre o corpo inerte de Bucéfalo, Alexandre pensava no seu passado de Glória, pensava em Queroneia, onde os dois esmagaram as forças que foram do velho Epaminondas, também amigo do Ventor. Recordava a travessia do Helesponto e como afagou o pescoço do seu cavalo ao pensar na empresa que tinha pela frente, imaginando que ia investir contra o mais poderoso exército do mundo, na época, podendo nunca mais regressar. Olhava as últimas montanhas da Europa que se escondiam dele embebidas pela penumbra nebulosa e como que, para ganhar confiança, voltou a fazer uma festa no pescoço do Bucéfalo. A sua guerra tinha sido terrível, pois tinha, enfrentado, as forças de Dario III e de muitos mercenários gregos que se haviam juntado a Dario para lutar contra os macedónios e os outros gregos seus aliados.

Aí enterrou o seu companheiro de armas e decidiu prestar-lhe uma derradeira homenagem. Mandou construir uma nova cidade a que deu o nome de Bucéfala e que se julga ser a velha cidade histórica de Jalalpur, no actual Paquistão. Depois, partiu montado num cavalo que um soldado, outro filho da Tessália, lhe emprestou e que o levou de retorno à fabulosa cidade de Babilónia. Ali, chegou já adoentado e, ao subir as escadas por onde muitas vezes passara Nabuco, junto com o Ventor, dsse-lhe: "Ventor, agora que fiquei sem o Bucéfalo, o meu velho companheiro de armas, fiquei também com o pressentimento que as minhas batalhas terminaram para sempre. Ele, e julgo que eu também, jamais voltaremos a ver as belas montanhas da Tessália e da Macedónia.

Sinto-me triste e sem forças e nem quero pensar em regressar sem levar o Bucéfalo comigo". E assim foi! Ainda ouviu, durante algum tempo, o som das rababas mas, sem o Bucéfalo nas cavalariças de Nabuco e enquanto ouvia os acordes das rababas ele caminhava em sonhos sobre a Tessália, sobre a sua Macedónia, montando o seu Bucéfalo mas, caminhando iluminado por Apolo, direito ao Senhor da Esfera.


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quarta-feira, 2 de julho de 2003

A Última Batalha de Alexandre

 Ventor 02.07.03

A Batalha de Hidaspes

Alexandre Magno, como já sabemos, partiu da sua Macedónia com instintos belicosos.

Ele tinha, inculcado na sua cabeça uma verdade única! Dario III, Rei da Pérsia, tinha insultado, numa representação diplomática perso-greco-macedónica, a pessoa de seu pai, Filipe II, Rei da Macedónia, como Rei e como homem e mandou entregar essa nota diplomática, sem retirar uma vírgula do que tinha dito. Filipe tinha na sua cabeça que, no futuro, atacaria a Pérsia, mas sentia que ainda não dispunha do poder militar suficiente para levar a cabo tal empreendimento.


Filipe II da Macedónia, o pai de Alexandre Magno

Entretanto, como Filipe da Macedónia não era burro e nem queria vir a ser, estudava minuciosamente, tudo o que dizia respeito ao poder militar dos persas, as suas ligações estratégicas, a envolvência das colónias gregas situadas na Lídia, nas costas do Mar Egeu e as eventuais alianças de Dario com eventuais desavindos das cidades gregas que não gostavam de Filipe.

Alexandre que era irreverente e decidido, caminhava nos calcanhares do pai, tendo como objectivo, um dia, vir a fazer Dario engolir as palavras com que insultara seu pai.

Por desavenças intestinas e uma luta surda entre a Macedónia e outros estados gregos, sabe-se lá a razão, Filipe foi morto e Alexandre, apoiado por amigos seguros, tomou as rédeas do poder mas sempre com a Pérsia como objectivo.

Como era mais decidido que o pai, tal como ficou provado na acção desencadeada por Filipe junto dos seus generais para ver qual o mais hábil e com capacidade para desfazer o Nó Górdio, é o que se diz, Alexandre, ainda um rapazola, perguntou ao pai o que se passava e este informou-o que comandaria as suas forças militares o general que mais rapidamente fosse capaz de desfazer o Nó Górdio.

Alexandre chateado por ver os generais encrencados a coçar o couro cabeludo com algo que não fazia sentido, virou-se para o pai e disse-lhe que a Macedónia não podia perder tempo com coisas efémeras como essas e deu um golpe com a sua espada, desfazendo o Nó Górdio. O pai, olhou-o e, embora não fosse isso que esperava, achou que ele tinha razão, pois nem pensou duas vezes e só com um golpe da espada desfez esse Nó que ficou famoso para a eternidade. Filipe entregou o comando das tropas ao seu filho que havia provado ser prático, rápido e eficiente.

Foi baseado nessa sua eficiência a tomar decisões que nem pensou duas vezes. Organizou as suas forças e, sem hesitar, atravessou os Dardanelos e avançou sobre o Império Persa até se livrar de Dario III e conquistar toda a Pérsia como vimos até aqui.

Porém, quando já Senhor da Pérsia, ao ter conhecimento que os indianos, por terem sido velhos aliados de Dario ou por terem esperança de trincar as fraldas do império que tinha sido de Dario, começaram a movimentar as suas forças e isso chegou aos ouvidos de Alexandre que, como já vimos, sem dar ouvidos ao Ventor, mandou os seus generais prepararem-se para avançarem pela Bactriana, organizar uma nova caminhada, preparando alguma solidez na sua rectaguarda, consolidando as sus defesas e, depois, descer rumo à Índia.

Esta caminhada foi realizada um tanto ou quanto às cegas, pois nem Alexandre, nem os seus generais tinham conhecimento do que os esperaria pelas montanhas geladas do que é hoje o Afeganistão, o Paquistão e a índia. Desconheciam por onde passar essas montanhas geladas, que rios havia, como sustentarem-se a eles e aos cavalos e nem sabiam se o mar ficava perto ou longe. Disse-me o Ventor que Alexandre e os seus homens julgavam que o rio Indu que nasce nas montanhas mais altas da Ásia, fosse o Alto Nilo ou Nilo Superior, no Egipto. Isto hoje, faz rir estes generais modernos, habituados a ver o mundo de cima para baixo. Mas, com a cartilha de Heródoto nas mãos, muito mal informado, julgando bater  as velhas caminhadas de Hércules e de Poseídon que, segundo o que se julgava saber na época, nenhum deles tinha atravessado o rio Indo e Alexandre acabou por fazê-lo.

No âmbito de escaramuças sem fim, no rio Hidaspes, um afluente do rio Indo, no sul do Paquistão travou a sua última batalha militar contra um exército diferente, cuja cavalaria era maioritariamente formada por elefantes. Ele já tinha alguma experiência nessa luta, contra uma "cavalaria" de alguns elefantes utilizados por Dario mas, desta vez, era tudo diferente.

Os seus homens e cavalos, desgastados pelas suas caminhadas em redor das fraldas das montanhas de neves quase perpétuas da grande cordilheira do Indocuche, de ventos e frios gélidos, dispuseram as suas forças, já muito desanimadas na margem do rio Hidaspes junto à fronteira do Paquistão e iniciou-se a peleja com uma desvantagem acentuada para as forças de Alexandre, embora se diga que utilizou tudo o que tinha, inclusivé, uma cavalaria com 75.000 homens.

Aqui, depois de uma luta diferente, com os homens extenuados, com cavalos velhos como o Bucéfalo, mortos ou feridos pelos terríveis elefantes, Alexandre apercebeu-se que o seu empreendimento teria de terminar ali. Foi nas margens do Hidaspes que, como ele confidenciara ao Ventor, travara a sua última batalha, esta, também vitoriosa.


Elefantes ao ataque. Podia ser em Hidaspes

Depois da última grande e péssima caminhada, chegou a Babilónia, sem o Bucéfalo, como já sabem e atacado por febres terríveis.

Algum tempo depois do retorno da Índia, o Ventor entrou nos aposentos de Alexandre, encontrou-o muito deprimido e, praticamente, sem vontade de prosseguir. Ele disse ao Ventor que, depois de tanta guerra e de cinco extenuantes batalhas, sentia que este mundo não era, de facto, o que ele tinha esperado e que iria pedir aos seus generais para que, logo que o Senhor da Esfera chamasse a sua alma, depositassem o seu corpo longe de Babilónia e que, se fosse possível, gostaria que fosse na Macedónia mas, meditou um pouco e olhando o Ventor, olhos nos olhos, disse: "na Macedónia não será possível, pois chegaria lá já desfeito, mas se os meus generais me quiserem fazer uma última vontade, poderiam levar o meu corpo para Siuwa, no Egipto a terra onde fui coroado Faraó e onde ouvi, pela primeira vez, o som da rababa"!

O Ventor, triste com a situação de Alexandre, pois não gostava nada de o ver tão doente, caminhava nas margens do Eufrates ao lado de Diana, nunca abandonando o seu arco e, quando resolveu voltar a ver Alexandre, este, extenuado, já um autêntico farrapo humano, uma amostra do homem que tinha sido, disse ao Ventor que ser belicoso nunca será agradável para ninguém.

"Sabes, Ventor! A única coisa boa que vou levar deste mundo, é a lembrança do Bucéfalo. Adorava ver o Bucéfalo e o Antar a correrem brincando que até pareciam gozar connosco. Na praia egípcia, junto a Rhakotis, o Antar saltou ar fora, parecia voar e o Bucéfalo, muito feliz a olhá-lo mas, lá por dentro, cheio de inveja por não poder acompanha-lo. Mas a vida é mesmo assim Ventor. Diz ao Senhor da Esfera que a minha honra a Apolo é a minha honra a Ele Próprio".

A imagem de Alexandre Magno montando o seu Bucéfalo, nas batalhas

Talvez o Ventor não me tenha contado tudo sobre Alexandre, talvez eu tenha por aqui algo que não encontro mas, após a morte de Alexandre, o Ventor continuou a sua caminhada sempre com a missão de que o Senhor da Esfera o incumbira - observar o comportamento dos homens.

Mais tarde voltou a Alexandria e acompanhou um pouco Ptolomeu, um dos mais inteligentes generais de Alexandre Magno. Talvez ele me conte um dia mais sobre Alexandria, a primeira cidade "menina" que Alexandre desenhou na areia da praia para o Ventor, juto a à velha aldeia de Rhakotis. 


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Alexandre Magno na India

 Ventor 02.07.03

O Ventor continua a contar-me coisas sobre o seu amigo Alexandre, o Magno.

Diz-me o Ventor que, depois do encanto das rababas, dos tambores persas e de outros instrumentos de música, Alexandre não tirava os olhos de Rossana, a filha do rei Dario, quando por baixo do seu véu, os olhos negros e lindos de Rosana o admiravam enquanto se contorcia toda em danças que Alexandre não conhecia ainda.

Aliás, desde que Alexandre saiu da sua Macedónia até encontrar a rababa, a única música que Alexandre tinha ouvido foi o rufar dos tambores de guerra na preparação para dar início às batalhas onde se jogavam as vidas dos seus soldados e a sua, bem como as vidas dos seus inimigos. Daí o Ventor dizer que as músicas das rababas e as danças de Rossana serem momentos de paz na cabeça belicosa de Alexandre que fervilhava na preparação de outras batalhas contra outros beligerantes que, nas fronteiras da Índia, se preparavam para atacar as fraldas do Império Persa do qual, pelas força das lanças macedónicas, Alexandre se tornara o legítimo herdeiro.


A cavalgada era para leste

Por isso, Alexandre caminhando naquele que fora a obra prima de Nabucodonosor II, da velha Babilónia, se preparava para contornar o Golfo Pérsico e levar a guerra aos seus novos inimigos que, comandavam os seus exércitos sentados sobre os dorsos de elefantes indianos. Aliás, vindos dessas paragens, já o Dario os tinha utilizado, como "cavalaria", contra as tropas de Alexandre.

Entre as belas flores dos jardins que tinham sido de Nabuco, ao cair da noite, uma noite daquelas em que Diana mais brilhava, caminhavam lado a lado, Ventor e Alexandre. Alexandre dizia ao Ventor que teria de levar a guerra muito para além da Bactriana  e conter as ameaças de exércitos diabólicos de que nem fazia a mínima ideia da sua existência. O Ventor recomendava calma a Alexandre pois os seus homens estavam cansados de tanta batalha e a próxima caminhada iria ser muito longa e muito difícil e transformaria esse empreendimento bélico na pior façanha que alguma vez os seus homens teriam imaginado. Mas, então, Alexandre ainda estava embrenhado de poderosas energias e preparado para levar a sua fúria incontida até terras indianas onde novos inimigos se preparavam para mordiscar os calcanhares do maior império do mundo de então.


Nas suas batalhas, montado sobre o Bucéfalo, Alexandre sonhava ser o maior de todos os reis que, um dia, tal como Nabopolassar, Nabucodonosor II, Círus I e outros, pisaram todas as terras que envolviam Babilónia

A ida fora difícil, as batalhas não tinham sido nada fáceis mas, o regresso iria ser a pior de todas as caminhadas. Alexandre, como já sabem, regressava com o Bucéfalo ferido da sua última batalha e, as suas tropas, extenuadas, homens e cavalos só sonhavam com as montanhas gregas da Macedónia, da Tessália, ... de toda a Grécia. Eles tinham saudades de "pular" sobre as ilhas do Mar Egeu e "saltar" sobre o mar azul! Todos eles, terrivelmente debilitados, pedem a Apolo para lhes ceder uma pequena quantidade da sua energia e do seu saber para os levar de volta a casa. Alexandre ao ver caído para sempre o seu fiel companheiro de 13 anos de ferozes batalhas, só pensava seguir os trilhos de Apolo, em direcção ao Ocidente.

Sem energias que lhe dessem ânimo, ele olhava Bucéfalo estendido no chão da morte e chorava! Chorava pelo seu fiel amigo estendido, inerte, virado para oeste, recordando o mundo que tinha sido o seu.

Bucéfalo esperava, antes de morrer que, com a ajuda do Senhor da Esfera, ainda voltaria a comer as ervas tenras da sua Tessália, nos vales e nas montanhas onde tinha sido criado com toda a liberdade possível para um belíssimo potro que viria a ser grande na companhia de Alexandre e o mais famoso cavalo da História.

Quando Alexandre e os seus homens enterraram Bucéfalo, Alexandre já não tinha cavalo suplente! Sentado numa pedra, Alexandre suspirava pelo seu amigo, olhava as montanhas negras da Batriana, e via Apolo começar a descer por trás delas em direcção à sua Macedónia e, por cima das sombras das montanhas que Apolo projectava de encontro a Alexandre e o grupo, o céu ficava colorido de um vermelho abrasador.

Naquele momento, envolvido por uma grande tristeza, Alexandre olhava para Ocidente, recordava Pella, recordava o lugar onde seu pai fora morto por traidores, recordava a sua primeira grande Batalha, em Queroneia, contra gregos desavindos e comandados por generais que tinham sido formados por Epaminondas também amigo do Ventor, à frente do Batalhão Sagrado e pensava na máquina perfeita que ele e Bucéfalo tinham formado.

Não esquecia como o Ventor ficou furioso ao ter conhecimento da irracionalidade de Alexandre ao mandar destruir tudo, em Queroneia e matar toda a gente, poupando apenas um filósofo por quem tinha alguma consideração.

Ele sempre dizia ao Ventor que, com o Bucéfalo formavam um corpo só! Bucéfalo sabia tudo que Alexandre pretendia nos momentos da peleja. Como esquivar-se às armas inimigas, como se lançar impetuosamente sobre o lado frágil do inimigo e Alexandre sabia complementar o seu cavalo, destroçando todos os inimigos.

Agora, para Alexandre, tudo tinha acabado! Só, no meio de homens desesperados e imbuídos de um sonho comum, Alexandre sentia-se destroçado. Um soldado macedónio, desce da sua montada que segura pelas rédeas e dirige-se a Alexandre: «Majestade, segure as rédeas do meu cavalo, monte-se nele e cavalgue para Pella; a Macedónia espera por nós».

Alexandre olhou-o intensamente e virou-se para as montanhas a oeste. «Espera, não espera, Majestade»? Voltou a insistir o macedónio.

Alexandre segurou nas rédeas desse cavalo, virou-se para Oeste e vê Apolo sobre as montanhas como que sorrindo para lhe dar alento. O Ventor sorri também para Alexandre, olha-o nos olhos e volta a olhar as montanhas onde Apolo está a desaparecer no meio do horizonte vermelho. Mas Alexandre não tira os olhos das montanhas, continuando a olhar o Ocidente e apenas balbucia uma palavra baixinho que só o Ventor compreendeu: «Macedónia»!

Mas o soldado macedónio, até ali, dono do cavalo, volta a fixar os olhos em Alexandre poir pareceu-lhe ter ouvido também a palavra «Macedónia» e baixou a cabeça num sinal de aprovação. Alexandre olhou-o e sorriu!"

Alexandre montou o cavalo do macedónio e o Ventor saltou para cima do Antar, estendendo o braço para o soldado macedónio que o agarrou e saltou também quase automaticamente e iniciaram todos viagem rumo a Oeste até encontrarem um abrigo junto a umas rochas que os protegeram durante a noite de um vento arrasador que soprava do Indocuche.

Foi terrível caminhar pela Batriana, rumo a Oeste para voltarem a atingir a velha e linda cidade de Babilónia.

Muitos soldados ficaram pelo caminho, mortos de sede de frio e de cansaço, mas sempre no rasto de Apolo virados para as montanhas negras, envolvidas pelo robe vermelho de Apolo para além das quais ficariam para sempre, lá longe, as lindas terras da Grécia e da Macedónia.

Disse-me o Ventor que, cada cavalgada que o Antar fazia rumo à retaguarda, na tentativa de ir ajudando alguns macedónios e gregos, todos os que encontravam mortos, estavam com as suas faces viradas para Oeste.


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quinta-feira, 5 de junho de 2003

Alexandre e a rababa

Disse-me que, o seu grande amigo, Alexandre Magno, já era um admirador destes instrumentos que foi encontrando à medida que caminhava nos desertos das suas invasões.

 Pilares da Civilização Helénica, carregada por Alexandre Magno e a sua gente até à Índia

Alexandre era um sonhador, cheio de boa fé e de vontade de melhorar o mundo do seu tempo. Ele chegou a enfrentar os persas sempre convencido que só um milagre permitiria que ele não cairia nas suas mãos. Sendo afoito e destemido, enfrentou-os na velha Grécia e, não satisfeito, avançou sobre a Ásia Menor e foi esmaga-los na sua própria terra. Os poderosos reis persas, gostavam de colocar o pezinho na Europa mas os nossos amigos gregos não lhes deram quaisquer hipóteses.

Também com o Ventor montado no seu cavalo branco alado, o seu Antar, sempre ao lado de Alexandre e a dar-lhe força, mal seria que os persas levassem a melhor!

Alexandre,  após a batalha de Isso. A família de Dario frente a Alexandre Magno

Mas as guerras, não são só feitas de pancadaria e mortes. Tudo que a humanidade transporta em si, seja um lindo sorriso aberto, sejam as suas tristezas ou as suas alegrias, o seu instinto maléfico ou amor para partilhar, nas invasões de Alexandre ao império persa, tudo aconteceu. E, quando Alexandre derivou para o Egipto onde foi aclamado como um grande Faraó, ele conheceu a rababa, um instrumento de música e de que vos vou falar como o Ventor me falou e foi assim:

«como todos sabem, o meu amigo Alexandre, andou pela Pérsia e pelo Egipto. No Oásis e santuário faraónico de Siuwa, foi aclamado como Faraó do Egipto. A caminho de Siuwa, encontrou uns nómadas beduínos e, na mão de um deles, viu um instrumento de música a que chamavam rababa.

Alexandre gostou do som e pagou uma quinhenta de cobre ao Beduíno para lho tocar enquanto ele descansava o seu espírito a pensar como resolver, a contendo de todos, os problemas do império já conquistado e no que haveria ainda para além das dunas que já encontrara.

O Beduino tocou até Alexandre adormecer, depois, pé ante pé, levantou-se e ia tratar do seu próprio descanso, pois passara uma tarde inteira a tocar para o "novo Faraó" e também estava com sono. Alexandre, sorrateiramente diz:"onde pensas que vais? Ainda não estou cansado de te ouvir, estou apenas com os olhos fechados"! O Beduíno, atrapalhado, pediu-lhe para o deixar descansar e já lhe dava a rababa e tudo!

Alexandre reparou nas olheiras do beduíno e não via nenhum sinal de cansaço. Pergunta para os deuses porque raio tiveram de fazer aquela gente diferente pois, assim, não conseguia ver se estavam a mentir. Depois pensou que se fosse um macedónio não se deixava enganar mas, como era um Beduíno e não dava para ver as olheiras devido à sua pele escura, achou que seria injusto se o homem estava a falar verdade. Por isso, fez-lhe uma proposta quando viu o braço estendido do Beduíno a entregar-lhe a rababa. "Está bem, fico com ela, mas tenho de ficar contigo também! Pago-te bem para tocares para mim e acompanhares-me para onde eu fôr". O Beduíno disse-lhe: "sim, senhor, mas agora só quero dormir".

Alexandre adormeceu e o beduíno ficou, deitado no chão, encostado à tarimba de Alexandre e agarrado à sua rababa. No dia seguinte, quando Alexandre acordou, reparou no instrumento e comprou-o ao beduíno por 10 talentos de ouro. Levou a rababa e deixou o Beduíno acompanhar a sua família e o seu Clã, na amanha das suas cabras e dos seus camelos.

O Ventor e Alexandre encontraram-se no caminho do Santuário de Siuwa e foi aí que Alexandre lhe contou esta história entre si, o beduíno e a rababa. Depois Alexandre rematou:

"Ventor, ele arranja outra e eu não estraguei o seu grupo, deixei-o partir"!

 Um Rababa magrebina. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported 

O Ventor disse a Alexandre (que pensava ser a rababa um instrumento único) que iria encontrar muitas rababas pelos caminhos que iria seguir e assim foi! Ao chegar a terras de Babilónia, encontrou outros instrumentos iguais. Ainda hoje não se sabe se a Rababa é de origem Egípcia ou Persa. O Ventor diz que a encontrou sempre por todo o velho mundo e, até Nabopolassar, pelas margens do Eufrates, adormecia com o seu som.

Sabe-se sim, que ela foi o ser caminhante que tem trilhado as dunas dos desérticos arábicos e africanos, todo o Sael e continua caminhando por todas as terras pisadas pelas gentes do islão e, como eles, foi saltitando de ilha em ilha, pelo Índico e pelo Pacífico e, até o Louco da Malásia, gostava de ouvir os seus acordes.

A Rababa é parente da Rabeca europeia medieval, podendo ser mesmo a sua progenitora! É constituída por uma, duas ou três cordas. São feitas de madeira e tem uma barriga de madeira ou de pele de carneiro e podem ser rectangulares, trapezoidais ou redondas e é um belíssimo instrumento musical usado pelos beduínos e pelos povos árabes, fundamentalmente, os egípcios e os marroquinos.

As músicas arábico-andaluzes foram introduzidas por Abu Hassan Ali Bem Nafi, conhecido como Ziriab. Este famoso cantor e compositor imigrou de Bagdad para a Espanha mourisca no séc. IX. Foi ele o fundador da música clássica marroquina, música essencialmente andaluz, entre os séc. X e XV.

Mas diz o Ventor que era uma alegria ver Alexandre e toda a comitiva de macedónios e demais gregos ao lado dos persas conquistados, cantarem e dançarem ao som da rababa, à sombra, junto dos muros tristes do grande palácio de Nabuco e debaixo de chorões que muitas vezes fizeram sombra nas sestas do Ventor e Diana. Foram rababas marroquinas, séculos depois, iguais às que o Ventor e Alexandre viram por terras babilónicas e persas, as mesmas que deram vidas alegres nos palácios e nos átrios da velha Andaluzia, mesmo no tempo em que Cid, El Campeador, se refugiara nas terras, então, mouriscas.


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